Alguma Luz

Pequenas
Orações

Capa de Pequenas Orações, de Xande Pereira

Xande Pereira

Dez canções em forma de prece. Um percurso sobre aquilo que percebemos, agradecemos, carregamos, perdemos, entregamos e aprendemos a continuar.

Não é preciso saber rezar para entrar aqui. Talvez seja suficiente reconhecer alguma coisa que estas canções também estejam tentando dizer.

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Capa de Pequenas Orações, de Xande Pereira
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O ciclo

Dez pequenas orações

Cada canção começa em um lugar diferente. Algumas agradecem. Algumas perguntam. Algumas não encontram resposta. Outras simplesmente ficam.

Antes da Palavra

Antes mesmo de saber o que dizer.

Uma oração sobre despertar para o fato de estar aqui. Antes do pedido, antes do agradecimento, antes do nome que damos ao mistério, existe um instante em que simplesmente percebemos: estamos vivos, presentes, diante de alguma coisa maior do que nossas palavras.

Letra

Ainda é cedo A casa guarda o silêncio da noite E a primeira luz atravessa devagar a minha janela Antes que eu encontre qualquer palavra o dia já aconteceu O vento passou pelas árvores e eu apenas despertei Não fui eu quem abriu esta manhã Não fui eu quem acendeu a primeira luz Chego tarde e tudo me acolhe como se esperasse por mim Recebe antes das minhas promessas antes dos meus pedidos antes mesmo da minha voz este espanto de ainda estar aqui Ensina-me a não atravessar este dia como quem atravessa uma rua qualquer Que eu veja o milagre escondido nas coisas que se repetem O pão A água O rosto de quem amo O ar entrando e saindo sem pedir licença Recebe antes das minhas promessas antes dos meus pedidos antes mesmo da minha voz este espanto de ainda estar aqui Se hoje eu nada souber dizer que o meu silêncio não seja vazio Que ele seja a minha primeira oração E quando a noite voltar se eu tiver esquecido de agradecer guarda, ainda assim, este pequeno instante em que finalmente percebi que o mundo inteiro já cantava antes de mim

O Que Sempre Esteve Aqui

Às vezes a vida não precisa mudar. Talvez nossos olhos precisem.

Uma prece de gratidão pelas coisas que deixamos de perceber justamente porque permaneceram conosco. É a canção de quem descobre que aquilo que hoje parece comum pode ter sido, algum dia, exatamente o que pediu chorando.

Letra

Passei tanto tempo olhando para longe que quase não vi o que estava ao meu lado Pedi sinais ao céu enquanto a vida deixava pequenos milagres sobre a mesa O pão Duas xícaras Uma cadeira ocupada Alguém perguntando se eu dormi bem E eu procurando alguma coisa maior Perdoa-me pelas vezes em que chamei de pouco aquilo que um dia eu pedi chorando Pelas mãos que se tornaram costume Pelas vozes que deixei de escutar porque sabia que estariam ali amanhã Pelos dias comuns que atravessei depressa esperando que a vida finalmente acontecesse Hoje eu queria não pedir nada Só ficar um pouco diante do que me deste e aprender novamente a reconhecer Obrigado pelo que chegou Obrigado pelo que ficou Pelo que não fez barulho pelo que não pediu aplauso Pelo amor que repetiu os mesmos pequenos gestos até que eu deixasse de chamá-los de milagre Se algum dia eu voltar a procurar Tua presença apenas nas coisas grandes faz-me voltar os olhos para a mesa Talvez haja pão Talvez haja alguém Talvez haja apenas uma cadeira vazia guardando a memória de quem um dia esteve ali E até por isso obrigado Porque ter saudade também significa que alguma vez eu tive Ensina-me a não precisar perder para descobrir que era precioso E quando amanhã tudo parecer comum outra vez não me dês uma vida diferente Dá-me apenas olhos diferentes para a vida que já tenho

Verdadeiro

Não estar certo. Estar inteiro.

Uma oração de autoexame sem punição. Olhar para si com clareza, reconhecer falhas e contradições, mas sem esquecer que aquilo que somos agora não precisa ser a última palavra sobre quem podemos nos tornar.

Letra

Não vim Te contar a versão de mim que conto aos outros Tu já conheces as palavras que escondi os silêncios que usei para parecer inocente Conheces também o medo por trás da coragem e o orgulho que tantas vezes chamei de razão Quantas vezes eu pedi para ser compreendido sem tentar compreender Quantas vezes esperei perdão sem reconhecer o que feri Eu construí desculpas onde deveria haver verdade e chamei de paz o simples desejo de não olhar para dentro Hoje eu não quero estar certo Quero apenas ser verdadeiro Tira de mim o que eu uso para esconder aquilo que preciso enxergar e deixa alguma luz chegar até aqui Mostra-me onde fui duro quando podia ter sido gentil onde me calei quando deveria ter ficado onde falei demais só para não escutar Mostra-me também o bem que ainda existe em mim para que eu não transforme arrependimento em desespero Hoje eu não quero estar certo Quero apenas ser verdadeiro Tira de mim o que eu uso para esconder aquilo que preciso enxergar e deixa alguma luz chegar até aqui Se houver em mim alguma pedra que eu ainda chame de razão transforma-a em caminho Se houver em mim alguma porta fechada por medo de mudar ensina-me a abri-la Mostra-me quem sou sem me deixar esquecer quem ainda posso ser E quando eu finalmente me enxergar inteiro que eu tenha coragem de começar outra vez

Daqui Pra Frente

Há coisas que um pedido de desculpas não consegue desfazer.

Mas talvez o arrependimento ainda possa mudar a maneira como vivemos depois delas. Uma oração sobre perdão, reparação e a difícil liberdade de não poder amar melhor ontem — apenas aprender a amar melhor daqui pra frente.

Letra

Há palavras que eu queria recolher depois de ditas Há silêncios que eu queria preencher depois que alguém partiu Há momentos em que eu poderia ter ficado e escolhi ir embora E outros em que fiquei mas meu coração já não estava ali Hoje eu sei que pedir perdão não muda o que aconteceu Não devolve o tempo não apaga uma palavra nem fecha sozinho aquilo que eu feri Mas talvez possa abrir uma porta onde antes eu só deixei um muro Perdoa-me pelo que eu não soube amar pelo que eu não percebi enquanto ainda estava perto Eu não posso voltar para amar melhor ontem mas posso aprender a amar melhor daqui pra frente Perdoa-me pelas vezes em que meu orgulho falou primeiro pelas vezes em que vencer pareceu mais importante do que não ferir Pelas portas que eu fechei depressa pelos abraços que deixei para depois e por todo depois que nunca chegou Perdoa-me pelo que eu não soube amar pelo que eu não percebi enquanto ainda estava perto Eu não posso voltar para amar melhor ontem mas posso aprender a amar melhor daqui pra frente E se houver alguém a quem eu ainda possa dizer eu errei dá-me coragem antes que seja tarde E se já for tarde para algumas palavras ensina-me a transformar o arrependimento em outra maneira de viver Eu não Te peço para apagar meus passos Só me ensina a escolher melhor o próximo E quando eu errar outra vez que eu demore menos para reconhecer menos para pedir perdão e menos ainda para voltar a amar

Onde Eu Não Posso Ir

Para quem amamos quando nossas mãos não alcançam.

Uma prece por alguém que está longe, sofrendo ou atravessando algo que não conseguimos resolver. E, pouco a pouco, a pergunta muda: talvez não possamos ser a resposta inteira, mas ainda podemos ser um lugar onde alguém descanse.

Letra

Há pessoas que eu queria guardar de tudo Do dia difícil da notícia que chega sem pedir licença Do medo que aparece à noite das palavras que alguém não deveria ter dito Se pudesse eu iria primeiro abriria todas as portas provaria todos os caminhos só para saber onde poderiam se ferir Mas há lugares onde minhas mãos não chegam Há dores que nenhum abraço consegue impedir Há escolhas que não posso fazer por quem eu amo e noites em que só me resta esperar Então vai onde eu não posso ir Fica onde eu não posso ficar Quando minhas mãos não alcançarem que haja outras mãos cuidando de quem eu amo E quando eu não souber como ajudar ensina-me também a não atrapalhar Cuida de quem está tentando parecer forte de quem responde que está tudo bem só para ninguém perguntar de quem se perdeu e ainda não sabe como voltar Cuida também de quem eu não compreendo de quem se afastou e até de quem meu coração ainda não aprendeu a perdoar Então vai onde eu não posso ir Fica onde eu não posso ficar Quando minhas mãos não alcançarem que haja outras mãos cuidando de quem eu amo E quando eu não souber como ajudar ensina-me também a não atrapalhar E se a resposta não for livrá-los de toda dor dá-lhes força para atravessá-la Se eu não puder carregar seus pesos faz de mim ao menos um lugar onde possam descansar Hoje eu Te entrego os nomes que carrego comigo os que estão perto os que estão longe os que ainda abraço e os que só posso alcançar pela saudade Onde eu não puder ir vai comigo até eles

Mesmo Sem Sentir

E quando não acontece nada?

Uma oração para quando não há resposta, presença sentida ou certeza. A canção não tenta resolver a dúvida. Deixa aberta a possibilidade de que continuar procurando — e até continuar perguntando — também possa ser uma forma de oração.

Letra

Hoje eu não trouxe palavras bonitas Nem sei se tenho alguma coisa para dizer Há dias em que tudo parece perto e outros em que até a esperança parece falar de outro lugar Hoje é um desses dias Eu procurei algum sinal nas coisas pequenas esperei a manhã esperei o silêncio esperei sentir qualquer coisa Mas a manhã foi apenas manhã e o silêncio continuou em silêncio Se hoje eu não consigo Te encontrar recebe ao menos o fato de eu ainda estar procurando Se minha fé não souber falar escuta esta dúvida Talvez ela também seja uma forma de oração Já Te procurei naquilo que entendo Hoje eu Te procuro no que não sei explicar Na pergunta que ficou sem resposta na porta que não abriu naquilo que pedi e não aconteceu Eu não quero inventar uma resposta só para ter alguma coisa em que me apoiar Se hoje eu não consigo Te encontrar recebe ao menos o fato de eu ainda estar procurando Se minha fé não souber falar escuta esta dúvida Talvez ela também seja uma forma de oração Fica comigo mesmo que eu não perceba Fica mesmo que eu não saiba chamar Teu nome E se eu estiver falando sozinho neste quarto que estas palavras ainda me ensinem a não desistir do amor Talvez amanhã eu volte a sentir Talvez não Hoje eu só consigo ficar Então fica também Não preciso que acendas o céu Se houver alguma luz deixa apenas o suficiente para eu dar o próximo passo

O Que Eu Não Posso Carregar

Nem tudo que importa está sob nosso controle.

Uma oração para aprender a distinguir aquilo que podemos fazer daquilo que precisamos entregar. Não uma confiança sem medo, mas talvez uma confiança em que o medo não seja quem escolhe por nós.

Letra

Eu trouxe comigo coisas demais perguntas que não consegui responder conversas que continuam acontecendo dentro da minha cabeça amanhãs que ainda nem chegaram e medos de coisas que talvez nunca aconteçam Passei tanto tempo tentando prever cada caminho como se pensar bastante pudesse impedir a vida de doer Segurei tão forte aquilo que eu amava que às vezes confundi cuidado com medo de perder Hoje eu quero deixar aqui o que minhas mãos já não conseguem carregar O que eu posso fazer ensina-me a fazer O que eu não posso ensina-me a entregar E aquilo que eu não consigo mudar não deixes que mude o melhor de mim Eu Te entrego as respostas que ainda não chegaram os caminhos que não sei escolher as pessoas que eu queria proteger e tudo aquilo que continuará acontecendo sem pedir minha permissão Eu Te entrego também a necessidade de saber como termina porque talvez viver seja aprender a caminhar antes de conhecer o destino Hoje eu quero deixar aqui o que minhas mãos já não conseguem carregar O que eu posso fazer ensina-me a fazer O que eu não posso ensina-me a entregar E aquilo que eu não consigo mudar não deixes que mude o melhor de mim Eu pensei que confiar fosse não ter medo Talvez seja apenas não deixar o medo escolher por mim Pensei que entregar fosse desistir Talvez seja abrir as mãos e continuar mesmo sem saber o que virá depois Então leva o que não é meu para carregar e deixa comigo o que ainda posso fazer Uma palavra um abraço um pedido de perdão um passo depois outro Se amanhã eu fechar as mãos outra vez ensina-me outra vez o gesto de abri-las

Eu Fico

Às vezes cuidar é não ir embora.

Nem sempre conseguimos diminuir a dor de alguém. Mas talvez possamos não aumentar sua solidão. Uma canção sobre estar presente sem explicar, consertar ou oferecer respostas fáceis — e sobre perceber que, algumas vezes, a luz que pedimos para chegar até alguém pode precisar das nossas próprias mãos.

Letra

Nem sempre eu vou saber o que dizer Talvez seja melhor assim Há dores que ficam menores quando encontram palavras e outras que só precisam que alguém não vá embora Eu fico mesmo sem saber o que fazer Eu fico Ensina-me a não oferecer respostas para perguntas que eu nunca precisei fazer A não dizer que tudo passa quando para quem sofre cada minuto parece não passar A não procurar uma razão bonita para aquilo que simplesmente dói Se eu não puder diminuir a dor ensina-me a não aumentar a solidão Talvez cuidar seja fazer um café abrir a janela sentar ao lado escutar pela terceira vez a mesma história sem olhar o relógio Talvez amar seja não perguntar quando alguém vai melhorar Talvez seja dizer você não precisa melhorar hoje Eu fico quando houver palavras Eu fico quando houver apenas silêncio Eu fico E quando for comigo quando eu for aquele que não consegue levantar quando minhas próprias palavras não souberem me consolar manda alguém Não precisa trazer respostas Só alguém que saiba sentar perto e dividir comigo o peso de uma hora Talvez seja assim que Tu chegues tantas vezes sem abrir o céu sem explicar a dor sem fazer barulho Talvez chegues em uma cadeira puxada para perto num copo d'água numa mão sobre outra mão numa voz dizendo baixinho eu estou aqui Então hoje se alguém precisar de Ti e minhas mãos puderem chegar primeiro usa as minhas Eu fico

Sem Resolver o Mundo

Como se faz para descansar quando ainda há tanta coisa por fazer?

Uma oração para permitir que algo permaneça inacabado por uma noite. Não como desistência, mas como reconhecimento de que a paz talvez não precise esperar até que o mundo inteiro esteja em ordem.

Letra

Como se faz para descansar quando ainda há tanto fora do lugar? Como se fecha os olhos sabendo que amanhã algumas perguntas ainda estarão esperando por nós? Talvez eu tenha confundido paz com ausência ausência de medo de dúvida de conflito Talvez eu tenha esperado uma vida sem ruído para finalmente escutar o silêncio Ensina-me a descansar sem precisar que o mundo inteiro esteja em ordem primeiro Ensina-me a respirar enquanto algumas coisas ainda não têm resposta Há conversas que ainda preciso ter decisões que não posso adiar há coisas em mim que ainda precisam mudar e outras que talvez nunca sejam como eu gostaria Mas esta noite por algumas horas posso deixar o amanhã ser amanhã Não quero carregar para dentro desta noite tudo aquilo que ainda nem aconteceu Não quero perder o que existe agora tentando proteger o que talvez venha depois Talvez paz não seja chegar a algum lugar Talvez seja descobrir que posso parar mesmo antes de chegar Ensina-me a descansar sem precisar que o mundo inteiro esteja em ordem primeiro Ensina-me a respirar enquanto algumas coisas ainda não têm resposta E se alguma coisa precisar de mim amanhã que me encontre amanhã Hoje eu já fiz o que pude já carreguei o que consegui já pensei até onde meus pensamentos alcançaram Agora ensina-me também a parar Não porque tudo esteja bem mas porque por esta noite eu posso não resolver o mundo Como se faz para descansar? Talvez assim respirando soltando devagar e aceitando que algumas coisas podem permanecer inacabadas enquanto eu durmo Amanhã eu continuo

Amanhã

Nem toda oração termina. Algumas voltam.

A última canção reúne ecos das anteriores e termina sem a pretensão de que alguma coisa tenha sido definitivamente aprendida. Há apenas uma disposição: voltar quando lembrar, recomeçar quando for preciso e aceitar que amanhã talvez seja outra primeira vez.

Letra

Amanhã quando o dia chegar talvez eu esqueça tudo o que aprendi até aqui Talvez eu passe depressa pela primeira luz e não perceba o mundo começando outra vez Talvez o pão seja apenas pão a água apenas água e eu volte a procurar longe o que sempre esteve aqui Amanhã talvez eu queira estar certo outra vez Talvez demore para pedir perdão Talvez minhas mãos se fechem tentando carregar o que nunca foi meu para carregar E se alguém precisar que eu fique talvez eu tenha medo de não saber o que dizer Amanhã alguma pergunta pode voltar e talvez eu procure uma resposta que não existe ainda Talvez o silêncio continue em silêncio Talvez eu queira resolver o mundo antes de dormir Se isso acontecer lembra-me devagar que eu não preciso entender tudo para dar o próximo passo E amanhã quando eu voltar a esquecer recebe esta oração como se fosse a primeira Não porque eu tenha aprendido mas porque ainda quero aprender Não porque eu nunca mais vá me perder mas porque ainda quero voltar Se amanhã eu esquecer de Ti lembra-Te de mim com a ternura do primeiro encontro Se eu passar sem perceber por alguma beleza não deixes que meus olhos se acostumem para sempre Se eu voltar a fechar as mãos ensina-me outra vez o gesto de abri-las Se eu esquecer de agradecer deixa alguma luz acesa em mim até que eu me lembre Eu volto quando lembrar E enquanto isso não esquece de mim Amanhã a gente começa outra vez

Depois da escuta

E depois da última nota?

Talvez nada precise acontecer imediatamente.

Talvez alguma frase fique. Talvez alguma conversa comece. Talvez você queira agradecer, pedir perdão, permanecer ao lado de alguém ou simplesmente descansar.

Amanhã a gente começa outra vez.

Créditos

Pequenas Orações

Xande Pereira

2026